Vânia Martins

A ditadura da felicidade, quem sobrevive?

*Por Vânia Martins

Estamos vivendo um momento singular na história da humanidade no que diz respeito ao comportamento social.  Ao observar a sociedade da qual fazemos parte, torna-se  cada vez mais evidente o surgimento de um novo e audacioso  estilo de vida que influencia gostos,  costumes, atitudes, pensamentos  e comportamentos dos indivíduos de  uma forma geral. A era digital com seus avanços tecnológicos , seu entretenimento diversificado e a busca exacerbada pelo prazer (Hedonismo) potencializam numa velocidade incalculável o “individualismo”, dando ênfase aos aspectos mais preponderantes do narcisismo em nossa sociedade atual. A humanidade e principalmente os jovens, nunca viveram tão de perto como agora, o narcisismo.

O narcisismo num conceito mais geral, é nada mais, nada menos que um estado psicológico em que o ser humano é incapaz de amar outra pessoa além de si mesma. Na mitologia grega, Narciso era uma criança tão linda e admirada que sua mãe, Liríope, preocupada com esse excesso, levou-o até o sábio Tirésias. Ele lhe disse que o menino só teria uma vida longa se jamais visse a própria imagem. Na adolescência, Narciso tornou-se um jovem formoso e belíssimo, mas muito soberbo e arrogante. Ao passear certo dia pelo campo, a jovem Eco o viu e se apaixonou por ele, mas o rapaz a rejeitou, causando em Eco um sentimento de profunda melancolia e tristeza. Um dia, cansado, Narciso dirigiu-se a uma fonte de águas límpidas. Eis então que a profecia se realiza: ao ver-se refletido no espelho das águas, enlouqueceu de amor pelo próprio reflexo. Envaidecido em si mesmo, não tinha olhos nem ouvidos para mais nada: não comia e nem mesmo dormia. Em vão, Eco suplicava seu olhar. Mas Narciso só olhava para si. Este amor impossível  levou Narciso à morte, afogado em sua própria imagem.

Em seu livro “por que pessoas boas fazem coisas más”, Erwin Lutzer afirma que, quer reconheçamos ou não, “todos nascemos enamorados de nós mesmos. Achamo-nos firmemente plantados no centro de nossas vidas.”  Para o autor, o narcisista avalia  todas as situações da vida em relação a si mesmo. Geralmente, está voltado para si, por isso, é incomum um narcísico abrir mão de qualquer coisa em favor do outro, neste caso, o próximo.
Para a  psicóloga  e  Dra,  Edna Paciência Vietta,  numa sociedade consumista como a que estamos vivendo , “ há uma regressão ao narcisismo e a sociedade é pautada por certas características: supervalorização da auto-realização, egocentrismo, personalidade centrada no EU, no individualismo, particularismo, hedonismo, busca por viver intensamente o presente, sentimento de desprezo e apatia pelo coletivo, buscando apenas a própria vantagem, só necessitando do Outro como instrumento de confirmação do próprio Eu.” Nesse contexto, o Outro, é também apresentado como objeto para o consumo.

Num contexto  como este, o indivíduo  é levado a criar uma identidade pautada no consumismo e no hedonismo ( busca pelo prazer) transformando tudo e todos em mercadorias que podem ser consumidas, coagindo o indivíduo a comprar para se sentir feliz tornando o que se pode chamar de “ditadura da felicidade”.

A ditadura da felicidade, é  uma ditadura pautada no “seja feliz a qualquer preço!” Esta ditadura impõe ao indivíduo, uma alegria pesada e exigente  demais, pois requer  deste, uma busca insaciável pelo prazer momentâneo, uma necessidade compulsiva pela felicidade, custe o que custar, e neste ponto, os programas de televisão  e as redes sociais  induzem à saciedade imediata  desta necessidade.

O mundo virtual, tem se tornado o mundo de todos! Milhares de pessoas se conectam diariamente em busca de informação, integração, entretenimento e pertencimento. E quem está desconectado deste mundo, está fora de uma realidade comum à grande maioria, pois, nunca se buscou tanto uma forma de “pertencer” virtualmente,  como nos últimos tempos.

Nesta era digital, as redes sociais  tem  atraído  milhares de jovens para uma  felicidade comprada.   Nas redes sociais  é muito comum observar  diariamente uma exposição de fotografias de pessoas que  apresentam uma “vida perfeita”. No  facebook a vida tem uma rotina invejável, ninguém sofre; ninguém chora; ninguém deprime; ninguém tem dias difíceis; ninguém é triste. Milhares de pessoas atualizam diariamente suas fotos e seu status, afinal , a cada foto postada o facebook nos convida a participar da vida das pessoas com a seguinte frase:  “escreva um comentário”. Na   “timeline” do facebook , uma pergunta está sempre presente:  “No que você está pensando?  E  esta pergunta evoca milhares de respostas por segundo, que é lida por centenas  de indivíduos ao mesmo tempo. E com tantas informações chegando a cada segundo com notícias quentinhas informando:  “como estamos felizes”,  quem não está feliz sente-se inadequado e fora do lugar.

No facebook o narcisismo se exarceba, se escancara, e a grande maioria tem uma vaga  garantida no espetáculo da “vida idealizada”, assistida por centenas e até milhares de pessoas.  Os olhos do facebook não suportam por muito tempo a tristeza. O facebook, ou por que não dizer “fakebook”, conforme sugere o jornalista  Leandro Karnal, mais parece uma realidade idealizada,  onde muitos indivíduos  pagam um alto preço para poder torná-la real, porém, tal realidade   parece uma possibilidade  cada vez mais inalcansável!

Essa nova filosofia de vida, de insatisfação pessoal permanente, de uma busca narcisista pela felicidade, onde a  prioridade é o próprio  “eu”, é utilizada como mecanismo eficiente pela TV brasileira para venda de seus produtos, resultando na formação de uma nova juventude que valoriza a conquista da fama, do sucesso, dinheiro e consequentemente de uma suposta felicidade ditada pela TV.

Os programas de TV  influenciam comportamentos  desde a  infância, não se restringindo apenas  à adolescência. Há muitas pesquisas conclusivas de que a TV passa uma mensagem oculta ( agora escancarada)  de incentivo ao sexo, violência e muitos outros preconceitos.

Dados informam que em outubro de 1998, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou uma pesquisa sobre os desenhos animados transmitidos pela televisão brasileira com o objetivo de medir a quantidade de violência transmitidas ao público infantil. O resultado foi assombroso, pois de acordo com a pesquisa, uma criança brasileira que assiste a duas horas diárias de desenho animado estará exposta a 40 cenas de violência explícita.  Em  um mês, seriam 1.200 cenas, e em um ano, são  14.400 cenas de pura violência sendo transmitidas dentro da própria sala de estar de nossas casas.

Dentro deste cenário o que mais nos causa espanto é que ao analisarmos o comportamento dos jovens, percebe-se esta incansável busca por um lugar no mundo dos famosos, como se este fosse o passo final para a felicidade. Esta é a mensagem endereçada aos jovens atualmente, prova de que a presença da TV nas casas e nas escolas não é mais com fins informativos, mas sim como fins indutivos, de  ditar  comportamentos, onde  a cultura do ter tem um único objetivo : “seja feliz a qualquer preço! Vende-se a todo instante a ideia de que a fama e o sucesso trarão felicidade eterna. Tal fama resulta como uma espécie de motor que rege a mente dos jovens, vítimas de uma programação que os leva a uma busca frenética por um felicidade irreal. E de tanto buscar esta tal felicidade, os jovens tem se tornado mais tristes do que nunca.

A busca incessante  pela felicidade traz, no mínimo, dois problemas para o indivíduo contemporanêo:

O primeiro é a  ansiedade, pois  há um aumento  considerável do  nível de ansiedade no indivíduo, induzindo-o  a buscar sempre algo a mais que lhe garanta atingir ou manter seu sentimento de felicidade. É o excesso de preocupação com o resultado futuro.

O segundo problema é a frustração.  Ao buscar sempre por algo mais, o indivíduo acaba se frustrando constantemente, tanto pelo que não conseguiu quanto pelo efeito nem sempre significativo  –daquilo que conseguiu- sobre a felicidade, pois  para ele o resultado é sempre medíocre e insatisfatório . Neste sentido, o indivíduo vive um contentamento descontente, como dizia a música de Renato Russo da banda Legião Urbana, buscando muita das  vezes na morte a  única saída.

Dados  alarmantes apresentam o Brasil como o quarto país latino-americano com o maior crescimento no número de suicídios entre 2000 e 2012, segundo um relatório inédito divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2014.

O documento, que reúne dados compilados em dez anos de pesquisas sobre o suicídio ao redor do planeta, descreve a questão como um grave problema mundial de saúde pública, frequentemente cercado de tabus, que precisa ser enfrentado pelas autoridades.

De acordo com o relatório, na América Latina, apenas cinco países tiveram um aumento percentual no número de suicídios entre 2000 e 2012: Guatemala (20,6%), México (16,6%), Chile (14,3%), Brasil (10,4%) e Equador (3,4%).

A OMS estima que 800 mil pessoas se suicidam por ano em todo o planeta, uma pessoa a cada 40 segundos. Essa é a segunda maior causa de morte em pessoas entre 15 e 29 anos, enquanto que os mais de 70 anos são aqueles que mais frequentemente se tornam suicidas.

Segundo a Assessoria do Centro de Valorização da Vida (CVV), a cada suicídio, de seis a dez outras pessoas são diretamente impactadas. Um brasileiro morre deste mal a cada 45 minutos. No mundo, o número cresce para um a cada 45 segundos. Pelo menos o triplo disso já tentou tirar a própria vida e outros chegaram a pensar em fazê-lo.

Diante de uma realidade assustadora, não é raro observarmos indivíduos que lutam contra o sofrimento buscando saídas mágicas e não enfrentadoras do problema. Alguns apresentam como  primeiro sentimento o de  negação, não conferindo à dor a sua legitimidade. Há então uma corrida atrás de livros de auto ajuda em que descrevem  “os passos da felicidade”, ou a  busca por  “receitas prontas ”de como  mudar a  vida para ser feliz. A felicidade vai se tornando cara demais e a grande maioria se enche de psicotrópicos buscando a famosa “pílula da felicidade”, afinal, cuidar da vida e encarar as próprias dores dá trabalho e é sofrido, então, melhor é pegar um atalho.

Muitos indivíduos, tentam  fugir das coisas trabalhosas, desagradáveis, entediantes e etc.  Esta distração da tristeza o leva muitas vezes a  desencadear  um mecanismo de compulsão por compras ou por comidas, por exemplo. E  É neste ponto que a ditadura da felicidade pesa  ainda mais, pois não  é raro, observarmos um alto índice de casos de distúrbios de alimentação entre os jovens, bem como uma indisciplina financeira.

E por que esta máxima : seja feliz a qualquer preço?

Ao longo da civilização, muitos foram os caminhos percorridos pelo ser humano na busca da felicidade. Sabemos que desde a antiguidade a grande busca do homem sempre foi esta: ser feliz.

Todo o indivíduo, independente da idade, raça, credo, sexo, personalidade ou nacionalidade,  busca pela  felicidade.  Quase nem percebemos, mas passamos a vida correndo atrás de sensações, diversões, confortos, facilidades, coisas gostosas de comer, bonitas de vestir, cheirosas, interessantes, e tantas outras coisas boas, que nos dão prazer.  Ser feliz sempre foi a maior busca de todos os indivíduos.

Se nos remetermos à bíblia, percebemos no livro de gênesis, que Deus criou o homem e a mulher para viverem  felizes no lindo  Jardim do éden ( O paraíso), porém com um único propósito que era o de glorificá-lo.  Como nos sugere  Tozer em seu livro “o propósito do homem”, tudo no Jardin do Éden, “estava em perfeita harmonia e simetria.” Mas, o homem foi  deslocado do centro da criação  e colocado no centro de suas próprias referências para  encontrar o seu lugar no mundo. Passou a ser senhor de seus desejos e vontades, e o seu eu passou a ser mais glorificado do que Deus.

Colocando-se como centro, o homem também passou a ser alvo, e alvo frágil, sem escudos protetores. Submetido ao imperativo do gozo- foi  obrigado a ser feliz  a qualquer preço, porém, já  não consegue lidar com tempos tristes e melancólicos.

O  imperativo da felicidade é um dos indícios da nossa subjetividade adoecida. Não suportamos ser frustrados em nossas vontades; não suportamos perder, queremos criar atalhos, fugir de um problema para uma solução instantaneamente.

Na Antiguidade, Idade Média e Modernidade a felicidade estava ancorada no Outro – no social, no coletivo – enquanto na atualidade, o ancoradouro da felicidade é o Eu – no indivíduo. Observamos a exacerbação do individualismo e a fragilidade dos laços sociais. Na prática, ao contrário de tempos antigos em que a sensação de encontro com a felicidade se via confirmada pelos Ideais mais amplos: Nação, Ideologias, Utopias, Família – hoje, temos a sensação de felicidade apenas quando não somos frustrados em nosso narcisismo. 

A  psicóloga e Dra, Edna Paciência Vietta,  afirma que a sociedade pós-moderna culminou não só com o Narcisismo, mas, também com o Hedonismo: a busca incessante do prazer; o Niilismo: vazio existencial; o Pluralismo: onde não há absolutos, onde a verdade é relativizada; o Consumismo, com a valorização do Ser pelo Ter; o Pragmatismo: sacrifício ao futuro em prol de um imediatismo total e escravizador,  na busca desenfreada por resultados; o Individualismo: o homem passa a ser a medida de si mesmo, anulando tudo e todos ao seu redor; e finalmente, o Utilitarismo: onde o foco está nas vantagens do Ser, somado ao conceito do descartável.

Mesmo com tantos jovens  candidatos ao estrelato, ainda há esperança de  que a fama não é a panaceia para os desafios da juventude brasileira. Não é  o sucesso na mídia, tão bem trabalhada pelos produtores de TV, que traz felicidade, mas sim a consciência de definir o que é suficiente  para desfrutar uma vida integral, cujos valores excedem ao poder da mídia.

Ainda podemos  interferir neste processo  e por isso, devemos proteger nossas mentes contra a publicidade excessiva do consumismo, do hedonismo e  do relativismo que nos leva a uma felicidade comprada, idealizada e desejada pelas redes sociais e programas de TV.

Na contra mão desta “suposta  felicidade”, temos uma   felicidade real, respaldada nas sagradas escrituras, e que nos apresenta Jesus, como o  grande Mestre , que com o  maior exemplo de humildade e simplicidade nos oferece a salvação.  O Rei dos reis, Podendo estar entre reis e holofotes, escolheu  estar no meio da multidão dos aflitos, dos doentes e oprimidos. Não escolheu riquezas, fama e sucesso, mas escolheu Amar e morrer por cada um de nós. Escolheu a forma mais simples que poderia para viver, usando apenas a verdade de seu testemunho.  Nele ( Jesus Cristo) encontramos  um caminho sóbrio para uma felicidade saudável que necessariamente passa pela renuncia de si mesmo, de não mais “vivermos nós, mas, deixarmos  Cristo viver em nós”.

Se não queremos ver esta geração morrer buscando uma felicidade irreal, temos que parar de trocar os sonhos  eternos de Deus por alegrias passageiras. Todos os passeios no shopping, as melhores fotos na página do facebook, o mellhor carro, as melhores marcas de roupas, calçados e  etc,  não resolverão a angústia da alma. É necessário alargar as fronteiras dos nossos sonhos, e para isso, é necessário se voltar para o que de fato importa no relacionamento com Deus  que é a fé e a  obediência. É preciso voltar a sonhar os sonhos de Deus e entender que a “A alegria do Senhor é a vossa força.”( Neemias, 8:10)

O chamado de Deus para nossas vidas é para uma felicidade real, que passará inevitavelmente pelas tribulações e aflições deste mundo. Por isso, é importante pensar como Ricardo Gondin nos sugere em seu livro “ artesãos de uma Nova história”: “se você quiser que o seu mundo seja diferente, não se deixe impressionar pela aparência pedante dos cultos inteligentes, pelo poder dos fortes, pelo luxo estonteante dos ricos ou pela espiritualidade piegas de alguns religiosos. Se você  realmente quer mudar a sua realidade e transformar o seu mundo, comece a enxergar com os olhos de Deus, a agir com o que tem às mãos, sem impressionar-se com o que está ao seu redor.” Por isso, lembremos o que nos diz  o  salmista: “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente.” Salmos 16:11

Piper afirma que Jonathan Edwards vinculou a busca da felicidade à palavra de Deus dizendo: “ Jesus sabia que toda a humanidade estava em busca da felicidade. Ele a dirigiu para a maneira correta de alcança-la e disse-lhe em que precisa se tornar para ser abençoada e feliz.”

A Deus, fonte de nossa real felicidade,  toda a glória eternamente.


img-20160622-wa0008* Vânia Martins – Graduada em Psicologia pela Universidade do Sul de Santa Catarina. Pós Graduada em Psicodrama, pela Lócus/Partner RH, com foco em Psicoterapia bipessoal, casal  e grupos, obtendo o título de Psicoterapeuta Psicodramatista. Pós Graduada em Terapia Familiar Relacional Sistêmica, pelo Eirene do Brasil, Blumenau, 2014, com foco em Psicologia Clínica a casais, famílias e indivíduos, obtendo o título de Psicoterapeuta Familiar Sistêmica.

 

Get a free blog at WordPress.com Theme: Fusion by digitalnature.