* Morte, palavra tão temida!

*Por Vânia Martins

A morte sempre foi intrigante e cheia de mistérios. As religiões e filosofias, sempre procuraram questionar e dar explicações sobre sua origem, bem como, sobre o destino do homem. Para cada pessoa a morte terá uma forma e um conceito. E cada um dá a ela o sentido que acredita pautado em suas crenças e suas tradições familiares e culturais.

É fato que a religião sempre teve um papel importante na morte, sendo que muitas delas atribuem à mesma, um valor singular, onde o sofrimento tem um objetivo específico: o de preparar-se para uma nova vida.

Para o cristianismo, a morte tem uma dimensão espiritual, pois é a “passagem” para uma nova vida, a vida eterna. Aos que partem, surge a alegria de uma nova morada, a morada de Deus, pois “preciosa é aos olhos de Deus a morte de seus santos”. (BIBLIA SHEDD, Sl 116.15)

Os cristãos acreditam na vida após a morte, que é a vida eterna. Sua maior diferença entre outras religiões é que não acreditam em reencarnação e sim na ressurreição, numa única vida terrena que depois de cessada, será unida a Deus e o corpo também será ressurreto junto com a alma. Essa é a minha crença!

O salmista buscou expressar a morte como a certeza de repouso em Deus :

O Senhor, tenho-o sempre à minha presença; estando ele à minha direita, não serei abalado. Alegra-se, pois, o meu coração, e o meu espírito exulta; até o meu corpo repousará seguro. Pois não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o  teu santo veja corrupção. Tu me farás ver o caminho da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente. (BÍBLIA SHEDD, Sl 16.8-11)

Mesmo sendo a morte, segundo o cristianismo, a esperança de uma nova vida, quando esta é apresentada com toda a seriedade que merece, nos assustamos, fugimos, negando a dificuldade de enfrentar a realidade, já que o morrer também é parte do viver. E ainda que o homem tente fugir e negar a finitude da vida, nada o livrará da tão temida morte e tão pouco dos sentimentos que ela suscita dentro de cada um.

De acordo com Bayle(1995), desde o começo dos tempos, os filósofos destacaram o confronto com a morte como a chave da vida. Se quisermos entender a vida, dizem eles, precisamos lutar com o mistério da morte, pesquisar o seu significado, chegar a um acordo quanto à sua natureza.

A morte, palavra tão temida, é pouco pronunciada em nosso dia a dia. Afinal, falar de morte é como falar de dor. E a dor não tem beleza, não seduz ninguém, principalmente num mundo consumista como o que vivemos, onde o belo e a juventude eterna são cultuados e onde a morte parece ser deixada de lado, ainda que ela seja tão real e inevitável.

Mesmo diante da temível realidade da morte, o homem nunca conseguirá detê-la. Por mais que a comunidade científica e a inteligência humana estejam a todo vapor, nada é incapaz de neutralizar a morte, nada a impede de prosseguir seu curso, cumprir seu destino.  Como afirmou BAYLY, (1995) “A morte não poupa ninguém.” Não há privilegiados, não há escolhidos, pois a morte um dia, visitará todos os seres humanos.

            Nossa cultura mostra-se muitas vezes impaciente diante da morte, ou melhor, do enlutado, tendo o desejo de sair logo do luto, livrar-se do sofrimento. Numa época em que se busca de todas as formas a minimização ou eliminação do sofrimento, parece quase proibido chorar ou sofrer. Em muitos funerais, não é raro ouvir: “não chore, não fique triste, vai passar!”, “ele(a) foi para um lugar melhor!”, “Deus quis assim!”,  Muitas vezes, os que expressam tristeza por muito tempo, são vistos como fracos, É como uma mensagem sutil dizendo: Seja forte não se deixe abater!

            Vidigal, diz sobre o sofrimento da morte:

“deixem a pessoa chorar e sofrer. Isso não é problema, não é doença e não precisa de cura. Devemos é tomar cuidado com essa proposta atual de não sofrer e de resolver a vida na agilidade. Devemos tomar cuidado, pois poderemos descobrir, no dia da nossa morte, que esquecemos de viver.”

            De todas as experiências da vida, a morte impõe os desafios adaptativos mais dolorosos para a família e para  cada um de seus membros individualmente, com ressonâncias em todos os seus relacionamentos.

            A busca da compreensão da morte não diminuirá a dimensão da dor. Impossível embelezá-la, trazer a ela qualquer aspecto bonito, pois o evento em si é assustador. Nunca veremos a morte representada em lindos trajes, pelo contrário, ao representá-la, suas vestes são sempre pretas e tenebrosas e seu rosto é sempre assustador. Daí a dificuldade de se conceituar algo tão sombrio.

            McGoldrick, discorrendo sobre a morte afirma que  ela  é a questão fundamental com a qual vamos nos deparar na vida; Ela está no coração da experiência humana; Ela nos força a confrontar nossa propriedade máxima, lembrando-nos mais poderosamente do que qualquer outra coisa do quanto as relações familiares são importantes. ( MCGOLDRICK, in  WALSH e MCGOLDRICK, )

            Em muitas situações a humanidade poderá domar a violência da morte, amenizar sua chegada, mas, não há como fugir dela, nem tão pouco da dor que ela traz consigo. E entender algo tão violento que separa a alma do corpo é muito complexo, pois a morte sempre vem acompanhada de muita dor e sofrimento, e toda dor  requer muito treino, paciência e aceitação para se tornar construtiva em toda trajetória de vida. Porém, quando o enlutado busca no evento da morte a oportunidade do  crescimento, algo de bom acontece. É o que nos ensina Walsh:

[…] também aprendi muito com todas as vezes em que eu mesma estive próxima da morte, forçando-me a confrontar o terror da minha própria mortalidade e me surpreendendo com uma maior (e, por vezes, desconfortável) clareza da visão. Tais experiências, juntamente com a perda dos seres amados, fizeram-me mais consciente de quão precioso é o tempo, aguçaram meu sentido de prioridade, diminuíram minha tolerância a bobagens e catalisaram mudanças no curso de minha vida, afirmando valores e ligações humanas mais profundas.” (WALSH, APUD WALSH e MCGOLDRICK, 1998)

Para Kluber-Ross a vida seria bem mais fácil se encarássemos a realidade de nossa própria morte, pois a paz estaria ao nosso alcance, tanta a nossa interior quanto a paz no mundo. Ela diz: “creio que deveríamos criar o hábito de pensar na morte e no morrer de vez em quando, antes que tenhamos de nos defrontar com eles na vida”. (KLUBER-ROSS)

A morte do outro, principalmente de um ente querido, força-nos a pensar nos nossos próprios limites, testemunha nossa precariedade diante de algumas emoções, tira-nos sempre de um  lugar confortável para um lugar de profundos questionamentos e afirmação ou  reafirmação de valores e princípios. Como uma das experiências mais dolorosas e frustrantes da vida, ela  provoca uma ruptura entre quem  foi (falecido) e  quem  ficou (enlutado). A ausência do falecido provocará dor e sofrimento por um longo tempo e esta ruptura não poderá ser restituída, ao menos nesta vida. Mas aos que creem na ressurreição, a vida eterna é o que nos espera, e  o reencontro com aqueles que partiram com Cristo será nos céus, lindos céus!!

A Deus , a glória e a honra eternamente!!

 


* Vânia Martins – Graduada em Psicologia pela Universidade do Sul de Santa Catarina. Pós Graduada em Psicodrama, pela Lócus/Partner RH, com foco em Psicoterapia bipessoal, casal  e grupos, obtendo o título de Psicoterapeuta Psicodramatista. Pós Graduada em Terapia Familiar Relacional Sistêmica, pelo Eirene do Brasil, Blumenau, 2014, com foco em Psicologia Clínica a casais, famílias e indivíduos, obtendo o título de Psicoterapeuta Familiar Sistêmica.

 

 

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