* De mulher pra mulher

Sou mulher, esposa, mãe, dona de casa, psicóloga por profissão e serva de Jesus Cristo por decisão. Decisão esta que me acompanha há quase 20 anos. Venho de uma família grande, ao todo nove irmãos, sendo dois falecidos. Minha mãe partiu cedo (ao menos para mim), aos 59 anos, vítima de um câncer.

No auge dos meus 15 anos, quando toda menina-mulher desejava uma festa para celebrar o aniversário e a “entrada triunfal” na sociedade, tive que enfrentar olho no olho e face a face a dura realidade de que mães não duram para sempre e que aniversário de 15 anos nem sempre chega com festas, uma vez que no dia em que completei  15 anos estava no  hospital com minha mãe que acabara de passar por  uma mastectomia. Uma dura realidade para ela que, na ocasião, sentia-se mutilada por estar naquela situação. Ao lado de sua cama, estava eu, sentada numa cadeira, lendo a prescrição médica. Eram vinte e nove tópicos datilografados contendo “coisas que minha mãe não poderia mais fazer” (ao menos por um bom tempo) baseados em sua rotina diária, tais como: cortar lenha, cuidar da horta, fazer pães e queijos, andar de carroça, abaixar-se para colher ovos, colher laranjas, etc. Lembro-me que enquanto lia, minha mãe chorava exaustivamente.

Naquele momento percebi que parte de minha mãe morrera. Camponesa, acostumada a lidar com a terra, ela se viu imobilizada.  Minha mãe viveria ainda mais quatro anos depois daquele dia escuro. Neste tempo vi uma mãe-mulher entregando-se à doença, dia após dia. Eu, como única filha solteira e por casa, troquei de papel com ela e passei a ser sua mãe e ela, a minha filha. Cozinhava, cuidava da casa e de seus remédios, acompanhava-a nas consultas médicas e internações. Por um tempo escolhi cuidar dela deixando meu trabalho e meu sonho universitário para mais adiante, afinal, ela fizera muito por mim até ali!

Minha mãe, como tantas outras mulheres que conheço, não era uma profissional bem sucedida. Ela estudou o suficiente para ler e escrever, porém, trazia consigo uma missão: a de cuidar com amor e carinho de sua casa e de seus filhos enquanto vivesse! Missão nobre e louvável, apresentada por Deus como nosso principal papel, mas que nos dias de hoje parece ter perdido seu valor e seu “prestígio”.

A mulher, sabemos nós, vem de uma luta antiga para alcançar o seu espaço. Um espaço, por vezes, conturbado, pois desde o início do movimento feminista, nós, mulheres, estamos vivendo (ou tentando viver) como “mulher maravilha”, como se por trás das nossas vestes de “humana” se escondesse uma roupa de “super mulher”.

Há muitos anos atrás, uma revista renomada trouxe uma pesquisa que eu não considero descontextualizada. Em 1990, a revista lançou uma edição especial de oitenta e seis páginas sobre o papel da mulher. Nesta edição incluía artigos sobre avanços revolucionários tais como: “o caminho para a igualdade”, a psicologia relacionada ao fato de se crescer mulher, a mudança do papel feminino no mercado de trabalho, as mulheres como consumidoras, as mudanças nos conceitos de casamento e família e os obstáculos que as mulheres encontram quando entram na carreira política. Uma sessão destacava o perfil de “10 mulheres obstinadas” que combinavam “talento e dinamismo” para serem “bem-sucedidas” em suas profissões: uma superintendente da segurança pública de uma metrópole importante, a dona de um time de basebol, uma cantora de rap, uma ativista do movimento de conscientização da AIDS, uma alpinista, uma “bispa” de uma denominação tradicional, uma magnata do mundo fashion, uma saxofonista, uma chefe indígena e uma coreógrafa. Essas mulheres foram elogiadas principalmente pelo sucesso alcançado nas profissões que escolheram seguir.

Nessa edição especial da revista percebeu-se a falta de reconhecimento a mulheres bem-sucedidas em áreas não ligadas a uma carreira profissional — mulheres que optaram por  ficar em casa e cuidar de seus filhos em tempo integral;  que criaram filhos que contribuem de modo positivo com a sociedade. Como esperado, não houve na revista elogios às mulheres por serem moderadas, intercessoras, discretas, recatadas, singelas, gentis, tranquilas, por amarem seus maridos e filhos, manterem a casa limpa e organizada, cuidarem dos pais idosos, nem por serem hospitaleiras, bondosas, prestativas, misericordiosas ou demonstrarem compaixão pelos pobres e necessitados — o tipo de sucesso que, de acordo com a Bíblia, as mulheres deveriam desejar alcançar:

 

“ Ela deve ser conhecida como uma mulher que sempre praticou boas ações, criou bem os filhos, hospedou pessoas na sua casa, prestou serviços humildes aos que pertencem ao povo de Deus, ajudou os necessitados, enfim, fez todo o tipo de coisas boas.”( I Tm 5.10)

 

O artigo da revista apresentou mulheres em diversos ambientes e funções, mas havia poucas e raras referências ao lar. As leitoras que escolheram a carreira de donas de casa poderiam facilmente se abalar com o artigo suplementar sobre esposas, intitulado: “Cuidado: trabalho insalubre”. O subtítulo avisava: “Em busca de segurança econômica para toda a vida? Não conte com as prendas domésticas.” Como forma de homenagear a mulher, a revista influenciada pelo movimento feminista, certamente deixou de mencionar o que tem se perdido no universo feminino que é a beleza, o fascínio e a riqueza da sua constituição, do chamado e da missão singular  das mulheres  donas de casa, “senhoras do lar”.

Por isso, no mês em que se comemora o dia internacional da mulher, não lembremos apenas daquelas que estão inseridas no mercado de trabalho, ocupantes de importantes cargos, donas de grandes negócios. Lembremo-nos das mulheres donas de casa, que renunciaram a carreira para serem esposas e mães em tempo integral, que cuidam com zelo e cuidado do projeto mais fascinante de vida que é a família.

Os novos tempos tem colocado a mulher moderna numa posição vulnerável. O que se vê, em alguns casos, são mulheres desorientadas e confusas, que perderam o senso de missão, visão e propósito de suas vidas, e que estão de forma perpétua envolvidas em sofrimento, incerteza pessoal, ressentimento e culpa. Querem ser mulheres do século 21 da porta pra fora, (independentes financeiramente, bem sucedidas intelectualmente) e mulheres do século 19 da porta pra dentro (casas impecáveis, tudo limpo, organizado e  no lugar, como se estivesse esperando a visita da revista “Casa Claudia” para uma sessão de fotos).

Paul Tounier em seu livro “A missão da mulher” afirma que a mulher precisa distinguir “que tipo de contribuição sua sensibilidade e sentido da pessoa lhe permite levar à sociedade, quer esteja no lar, no trabalho ou na política.” Que nossa condição feminina nos torne inteiras em nossa missão e que as palavras descritas nas Sagradas Escrituras ecoe em nossos corações: “Ela deve ser conhecida como uma mulher que sempre praticou boas ações, criou bem os filhos…”

 


img-20160622-wa0008* Vânia Martins – Graduada em Psicologia pela Universidade do Sul de Santa Catarina. Pós Graduada em Psicodrama, pela Lócus/Partner RH, com foco em Psicoterapia bipessoal, casal  e grupos, obtendo o título de Psicoterapeuta Psicodramatista. Pós Graduada em Terapia Familiar Relacional Sistêmica, pelo Eirene do Brasil, Blumenau, 2014, com foco em Psicologia Clínica a casais, famílias e indivíduos, obtendo o título de Psicoterapeuta Familiar Sistêmica.

 

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