*A evolução da morte

Por Edla Zim

Quando éramos pequenos e sob a tutela de minhas avós, a morte parecia algo terrível ou até mesmo uma forma de punição. Minha avó materna, especialmente, muito supersticiosa, aterrorizava as crianças e jovens ao seu redor, contando causos assustadores envolvendo esta figura enigmática que era a morte. Para os netos, a morte se vestia de fumaça escura que podia facilmente passar por baixo da porta ou pelas frestas das venezianas, por isso nosso medo constante. DiaS  1 E 2 de novembro era um suplício. Fechávamos as janelas porque a procissão dos mortos, segundo vó Pedrinha, passaria pelas ruas da cidade e o recolhimento era obrigatório.

Felizmente, mamãe assumiu uma postura completamente oposta, porém um pouco perigosa para lidar com este fim que foi designado para todos nós. Para ela a morte simplesmente chegaria um dia, porém, não era preciso falar ou lembrar disto. Fugia tanto do assunto, que para seus filhos e amigos, a morte simplesmente não combinava com ela. Parecia até que não morreria nunca?

Comigo já foi diferente. Prevendo muito sofrimento, fui tentando lidar com o fim da vida humana ou interrupção definitiva da vida, melhor dizendo, com a maior naturalidade possível, sabendo que é o único e inexorável fim de todos. Depois de assistir “A Partida”, filme que aborda este assunto, e seguir os sábios conselhos de mamãe, nossa relação com a morte, mudou definitivamente.  Ela sempre nos ensinou que as demonstrações de carinho e de amor, deveriam ser feitas em vida. Das coisas materiais às sentimentais, nada deveria ser economizado ou deixado para depois. Quer beijar? Beije. Quer abraçar? abrace. Quer se declarar? Declare. Quer perdoar? Perdoe. Quer presentar? Presenteie e assim por diante. Esta era a condição básica para lidar com a tão temida fumaça escura que me assustou por toda a minha infância.

A diferença é que precisei percorrer quase 40 anos para entender este processo. Impossível sair de um estado de pavor para um estado de aceitação, sem que houvesse neste caminho, muita conversa, a prática do bem e respeito pelas pessoas. Se amamos e tratamos bem, não temos do que lamentar. Já meus filhos, evoluíram ainda mais. Percebem que o lamento de não ter feito, conhecido como arrependimento, é infinitamente mais assustador que a dor da partida. Partida que revestida de entendimento e amor, se transforma em uma breve despedida.

ivanacoluna

* Edla Zim é Graduada em Administração de empresas, Relações Públicas e Publicidade e Propaganda. Possui Pós Graduação em Gestão Empresarial e Recursos Humanos. Atuou quase 40 anos no mercado, dos quais 30 anos na empresa Tracebel Energia. Mas foi na família, que Edla conquistou sua maior formação e transformação. Palestrante de diversos temas voltados ao comportamento humano, família, mulheres, empresas e jovens.  

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